2 Many DJ's?
Um ser humano, paixão pela música e uma vontade louca de agradar aos outros - Esta é a fórmula base que constrói um DJ, tudo o resto é periférico.
Mas são esses elementos que circundam esta base que fazem desta arte a coisa mais apaixonante desde que o sexo foi inventado.
As formas de comunicar através da música são infinitas, mas existem dois grandes exemplos. Os performers e os DJ's:
- Os performers podem ser considerados como os que têm a maior presença em palco. Toda a atenção é suposta estar dedicada a eles enquanto estão a tocar. São as bandas rock, os artistas, os cantores, todos aqueles que tocam aquilo que criaram (ou não) à sua maneira, são os que criam o som no momento em que ele sai das colunas.
- Os DJ's são muitas vezes menosprezados porque não são performers, ou seja, não estão a criar a totalidade do som que sai das colunas visto que estão a utilizar elementos pré-gravados (discos, CD's, etc...).
No entanto, se conseguirmos puxar a nossa mente para a realidade conseguimos apercebermo-nos da limitação humana que acontece nas mais variadas situações. Um comediante tem sempre o seu momento alto, e por melhor que ele seja, por mais que se reinvente, o seu estilo estará sempre presente e ao fim de mais ou menos tempo, o seu trono é desfeito porque as pessoas já não lhe acham piada.
O mesmo acontece para os músicos que atingem patamares de fama elevados. Ao fim de algum tempo as suas criações começam a acusar a repetição da fórmula que os levou ao estrelato e acabam sempre por cair. Porque a mente humana é e sempre será limitada...
O DJ é dos poucos tipos de artista que sobrevive à limitação da mente humana desde que saiba usar o seu maior trunfo: inteligência! Ao usar criações de infinitas pessoas diferentes, ele reinventa-se a cada música que passa, pelo que a "única" coisa que tem que se preocupar é em escolher a música adequada para cada momento e lançá-la para os ouvidos de quem o ouve da forma mais agradável e eficiente que conseguir.
É por isso que grandes nomes do DJing sobrevivem ao passar dos tempos - aprenderam a usar a inteligência e a seguir a corrente dos estilos, das modas e daquilo que as pessoas mais gostam de ouvir em cada momento!
Ciências demográficas à parte, toda esta situação nos remete para um fenómeno muito fácil de perceber:
Se os performers tão rápido aparecem como desaparecem, existe uma renovação constante e eficaz de quem está no activo. Se os DJ's não desaparecem tão rápido quanto isso, pelas razões acima descritas, existe uma acumulação de DJ's no activo e, exagerando bastante, corre-se o risco de haver mais DJ's do que clubbers no mundo.
Surge então a ressalva: "mas nem toda a gente tem a capacidade para ser DJ, requer muita destreza mental e manual, capacidade de observação e dedicação à música (pesquisa)"
A refutação desta ressalva que traria esperança a todos os amantes da arte do DJing é algo que de dia para dia se torna mais óbvia:
A destreza manual e mental necessária (sincronização de sons, [i]blending[/i] dos sons através de equalização e a aplicação de formas originais de lançamento de sons) fica severamente afectada pelas facilidades oferecidas pelo surgimento da tecnologia digital adaptada ao DJ.
A dedicação à música não se compara à de outros dias; se dantes era preciso poupar dinheiro porque a única forma de ter as músicas era passando horas em lojas e comprando discos, hoje basta ficar sentado no compuador a ver os charts como os deste fórum e de muitas revistas e sites, meter a sacar e o que for bom fica, o que não for apaga-se... O orgulho que se sente em dizer "eu tenho esta música" quando se ouve na discoteca é reduzido à nulidade.
Juntando tudo o que já foi dito - a facilidade na criação de novos DJ's e a dificuldade em fazê-los desaparecer - explica-se a realidade que vivemos hoje:
Pessoas que instalaram o Traktor ou outro programa, carregaram no [i]sync[/i] e viram como era fácil, passam a auto entitular-se DJ's. As ferramentas que afinal foram criadas por profissionais do ramo com o objectivo de facilitar as partes trabalhosas para que o DJ tivesse mais armas ao seu dispor, para facilitar as criações, acabaram no fundo a virar-se contra todos nós, fazendo surgir uma vaga enorme de novos DJ's.
Não tenho nada contra o facto de uma pessoa, seja ela quem for, querer ser DJ - é sinal que partilha a mesma base de personalidade que eu e muitos outros ("paixão pela música e uma vontade louca de agradar aos outros"). Só que hoje em dia é muito difícil de quantificar a "vontade louca" e a "paixão pela música" de cada um dada as facilidades que todos têm ao seu dispor actualmente.
No mundo em que vivemos, o dinheiro é sem dúvida a coisa mais importante no mundo profissional. Os DJ's não são excepção, logo seguem as regras do mercado como qualquer outra profissão - se a oferta é maior do que a procura, os preços caem. Daí termos hoje em dia pseudo-DJ's a roubar lugar a verdadeiros amantes da arte só porque estão dispostos a receber menos.
E é assim que chegamos aos dias de hoje, DJ's a receber 10€ por actuação e DJ's de corpo e alma sem ter onde tocar, ... Tudo porque está na moda ser DJ - é "fácil", toda a gente gosta de música e toda a gente quer comunicar através dela (mesmo que não tenha a mínima aptidão para fazê-lo).
Os efeitos secundários conseguem ser ainda mais catastróficos! Como tudo o que é abundante, torna-se menos relevante. O diamante é raro, logo é precisoso e reconhecido. O DJ tornou-se comum, logo, irrelevante. Isto provocou uma modificação da noite a pontos de a grande maioria das casas viverem sob a nítida noção de que menos de 5% da clientela está atenta à qualidade do DJ.
Ainda este mês enviei a maquete do meu trabalho actual para uma conhecida discoteca no Montijo e o feedback foi algo do género "o set está muito bom mesmo, mas cometeste o erro de toda a gente que nos enviou demos - usaste as músicas que te caracterizam e não aquelas que o nosso público vem para ouvir - as da rádio!"
Gaita e eu a pensar que as demos serviam mesmo para demonstrar aquilo que nós somos!
Resumindo, toda a cultura se modificou tirando a importância ao DJ na maioria das casas. Chego às vezes a pensar que têm mais oportunidades as pessoas que aprenderam a misturar há um mês do que os que têm anos de experiência!
Não existe nenhuma forma eficaz para combater esta tendência. Pelo menos nenhuma que me consiga lembrar e deixo aqui o repto para que inundem esta thread com propostas e pensamentos para esse objectivo.
A única que me lembro é o combate à pirataria. A dificuldade que referi em quantificar a paixão pela música pode, de certa forma, ser quantificada pela vontade de gastar dinheiro com ela. Sim, é injusta, o gosto pela música é independente de se ser rico ou pobre, mas penso que é das poucas formas que existe. Se duas pessoas com a mesma conta bancária disserem que partilham o mesmo gosto pela música, mas uma vai comprar discos e a outra saca ilegalmente a música, eu acredito que quem compra tem mais paixão pelo que faz...
Por isso, a meu ver, a única forma de reconquistar o valor dos DJ's na noite é apertar o cerco e voltar a fazer dos DJ's um bem raro. Sim, as facilidades mantém-se, mas se houver maneiras fiáveis de fazer com que só se toquem músicas compradas já ia deitar muitos pseudo-DJ's (e patrões que não nos dão valor) pelas ruas da amargura.
Claro que não é tão fácil quanto isso e a parte legal só por si já dá pano para mangas... Mas parece-me ser uma boa forma!
Deixem as vossas opiniões!
Cumps!


A única foto da noite...
Pete tha Zouk & JoNeSy e o disco autografado





