Trip to London
Regressado de Londres, não consigo resistir em analisar aqui, como é meu hábito, certos aspectos da noite Londrina que merecem muita atenção e discussão. Pode ser que discutindo estes aspectos possamos aprender algo para melhorar a noite Portuguesa. Mas atenção, não estou a dizer que a noite de Londres é melhor que a nossa, apenas digo que se analisarmos com pormenor uma noite que é bastante diferente da nossa, poderemos aprender com os seus pontos negativos e positivos.
Para começar a análise, reporto-me a comportamentos que se podem observar ainda antes da noite começar: durante a semana, faz-se aquilo a que eles chamam o 9-5 (nine to five), ou seja, o trabalho (dayjob). Como metrópole que é, deduzo que a grande percentagem de pessoas que circula de dia, na verdade não mora em Londres, mas sim nos arredores. Não sei se este fenómeno é para evitar horas de ponta, se é tradição ou se é mesmo vício (se calhar é as três coisas ao mesmo tempo), mas o certo é que desde as 17h até cerca das 20h, qualquer esquina com um pub está repleta de gente, como demonstrado nesta imagem.
Ora como podem ver, não se tratam de transeuntes. É mesmo pessoal que entra para pedir 1 pint de jola (provei 3 e são todas uma m*rda quando comparadas com a maravilhosa Super Bock), e depois vem cá para fora na conversa (também não percebi muito bem porquê a não ser nos casos em que lá dentro também estava cheio)... São imagens que à primeira e à segunda surpreendem porque um gajo pensa que está numa grande metrópole e depois vê estes comportamentos tipicamente bairristas. Verdadeiras tascas, na minha opinião, com a diferença que são caras e cumprem as legislações sanitárias.
Tudo piorou quando vi pessoal, grupos de 3 ou 4, com um jarro praí de 2 ou 3 litros de birra, iam-se servindo. Aquilo já devia tar tudo morto. Mas o álcool lá é muito caro, e aquilo SÓ pode mesmo ser a vontade de ser bêbado ser superior à vontade de beber coisas boas. Enfim.
Isto para explicar o ponto seguinte da minha análise, já de noite, dentro da Pacha London. Entrei extremamente cedo pois supunha que eram esquesitos com as entradas e não quis arriscar. Mas assim que se entra, já o som está a 3/4 do volume máximo dos amps, a tocar músicas do mesmo estilo que se seguiriam a noite toda. Até aqui tudo bem, pronto, a cena é que aquele fenómeno (português?) de toda a gente ficar à beira da pista enquanto a casa não enche não existia! Ou seja, em Portugal, as pessoas chegam e encostam-se à beira da pista, vão chegando e a música vai tocando e às tantas já não há espaço à beira e vão-se chegando para o meio até, a certa altura, já não haver espaço nenhum (nos sítios que enchem) e só então a casa fica composta. Pois bem, lá é ao contrário, a pista enche do centro para a periferia. Isto quer dizer que quando entrei tinha 3 gatos pingados (nitidamente alterados, ou então com um parafuso a menos) no CENTRO da pista, a dançarem de olhos fechados, a curtirem as vozes bem soulful dos sons que se ouviam. Quando a casa estava a meio gás, as pessoas estavam no meio da pista e à beira só estava quem tava no bar. Ou seja, mesmo com a casa a meio, já havia vibe, nunca houve aquele período que tanto me irrita do pessoal na discoteca, que supostamente entrou para se divertir, e ficam ali feitos parvos a olhar uns para os outros. Agora se consigo perceber e explicar o porquê disto... Isso acho que não!
Bom continuando... Outros dois pormenores interessantes, que têm a ver com as leis deles. O horário de abertura de lá é das 22h às 5h e a hora de ponta pareceu-me ser por volta das 0-3h. Cá é mais tipo 0h às 7h, sendo a hora de ponta das 2-4h. E o segundo pormenor é a entrada exclusiva a maiores de 21 anos. Pela primeira vez na minha vida pediram-me identificação para entrar!
Vendo melhor a situação das horas de ponta, com base nos sítios que tou habituado a frequentar por cá, a partir das 4h nota-se mesmo a debandada geral. Não quer dizer que seja tudo ao mesmo tempo, só por dizer que a diferença entre a pista à hora de ponta e a pista à hora de fecho é abismal por cá. Lá, à hora do fecho a pista ainda estava a 80% do que tava à hora de ponta. Isto permite a qualquer DJ tocar com toda a liberdade durante toda a noite, sem ter de se preocupar tanto com as "obrigações" de passar música X ou Y só porque precisa de arrebitar o pessoal.
O porquê desta situação, na minha opinião, prende-se precisamente com o antecipar do funcionamento da discoteca. Eu pelo menos, quantas vezes passei secas à espera de serem horas de ir para a discoteca. Nunca passaram pelo mesmo? Tem dias que não apetece ir para um bar fazer tempo. Apetece-me dançar e curtir uns sons, mas só às 2h é que vale a pena! Que seca! Isto só faz com que às nossas horas de fecho (6h ou 7h) um gajo já esteja roto e, em noites comuns, já nem sequer lá esteja.
Quanto à idade, bom, essa parte penso que já discuti aqui. Eliminando o factor "putos" na discoteca, elevamos os padrões de saber estar e, acima de tudo, mentalidade aberta para sons novos. Aquele comportamento típico de criança de "nunca ouvi este som na rádio, não gosto" ou de "hey, DJ, mete a Love Generation!" acaba por ficar praticamente extinto. Conclusão - novamente mais liberdade para o DJ fazer sets com qualidade, sem ter de mandar periodicamente as bombocas que já sabemos.
Ao entrar na Pacha (pácha como eles dizem) depáro-me com uma casa baseada em madeira, com uma percentagem muito pequena de elementos metálicos (nem sequer o material de luz estava assente em suportes metálicos). Tudo bem, dá-lhe um ar quente e acolhedor, mas só mais tarde percebi o verdadeiro benefício disto: a acústica! Nunca na minha vida estive presente de som tão bem equalizado e poderoso como naquela casa. Bom, poderoso se calhar já, mas era daqueles que faziam sofrer o tímpano. Aqui não, este som entrava pelos ouvidos como o ar e fazia vibrar o corpo a pontos de por vezes interferir com a respiração (e provavelmente o ritmo cardíaco, hehe). O som era todo da JBL, pelas minhas contas cerca de 8 (4 pares) Subs no chão a toda a volta da pista principal e 5 pares de 2x18" por cima, misturadas com outras mais pequenas para compensações noutros sítios da discoteca.
Mesmo com todo este poder estamos a falar de ausência completa de ruídos parasitas detectáveis. Apenas e só, puro som, com a melhor definição de graves que já presenceei. Não é por acaso que todos os seguranças que circulam pela pista usavam tampões nos ouvidos e auriculares isolantes.
Como é normal no frachise das Pacha, são discotecas que vivem à base de noites predefinidas. Por cá (e penso que na grande maioria dos países) o importante é os nomes dos DJs no cartaz, por lá é o nome da festa. Se é uma Hed Kandi, se é uma Kinky Malinki, uma Smoke, uma Dirty, ... Seja quem for o DJ, estas festas obedecem a certos padrões de apresentação e de tipo de música e as pessoas já sabem o que esperar. Os nomes dos DJs só aparecem em segundo plano nos cartazes. À saída deram-me um saco de plástico cheio de flyers de outras festas e em nenhum deles se destacavam os nomes dos DJs.
No dia 16 de Set era uma festa Kinky Malinki, um seguimento da sobejamente conhecida Hed Kandi que já vende um número razoável de colectâneas em Portugal, mas com um toque mais ousado, com malhas de electro pelo meio e com percussão ao vivo.
Fica aqui uma foto das decorações do tecto da disco:
A música ouvida é sobretudo vocal house (Hed Kandi style). Aqui fogem muito pouco de editoras como a Defected (a rainha da noite) e outras semelhantes, excepto quando é para meter sons de electro. Aí a variedade já é maior... Só por aqui já se nota uma diferença abismal em relação à sequência que estamos habituados, pois no fundo, passou-se uma noite inteira a dançar a sons que cá se usam para fazer warm-ups e pouco mais. Mas se formos a ver, são sons muito mais alegres e que suscitam uma sensação de bem estar muito maior do que sons dark e agressivos como muitas vezes apanhamos no progressivo e no tribal.
O público, esse, não deixou de me surpreender. A certa altura comecei a ouvir berros típicos de "grande malha que tá a entrar" e no entanto fiquei à nora. Só praí uns 5 segundos depois é que me apercebi que estava a entrar a Precious Love, de Blaze. "Eu tenho este disco, eu sei a música de cor" - pensei eu - "e estes gajos reconheceram a música antes de mim!". A sequência era, regras e fórmulas à parte, tocar 3 ou 4 músicas de vocal house, sendo as vozes mais soulful as que rendiam mais, alternando com uma ou duas de electro, usando passagens relativamente rápidas, fazendo uma média de 4min por música (permitir uma, no máximo duas pausas por música). E só aí o electro começou a fazer sentido na minha cabeça. Nunca tinha experimentado esta fórmula (visto que o vocal house cá só rende se for comercial) mas realmente funciona.
Em contrapartida, quando tocou a Electro de Outwork, não se ouviram berros nenhuns e pareceu-me ser considerada uma música perfeitamente normal e igual a todas as outras. O que ainda mais me vem provar que eles curtem é de sons alegres e não de melodias a puxar para o obscuro.
Outros pontos altos que eu tenha memorizado foram músicas como o remix da Be Without You, de Mary J. Blige, a absolutamente fantástica Amê - Rej (que cá também já bomba forte e feio) da Defected (claro), a bombar com a acapella de Marthin Luther King e o seu discurso "I have a dream", seguida do maior berro da noite - Fedde le Grand "Put Your Hands Up for Detroit" e uma agradável surpresa - Red Carpet - Alright. Uma música que eu sou praticamente a única pessoa que conheço que usa e abusa deste som, lá foi a berraria geral e tudo a acompanhar a música a cantar. Filmei e tudo, hehe! Mas o vídeo mostro a seguir pois falta falar de um outro pormenor muito interessante: o strobe!
Como já escrevi há uns tempos valentes, o strobe e o seu uso inteligente, são meio caminho andado para uma noite bem esgalhada. Pois bem, ladies and gentleman, o strobe na Pacha London só acende na fase final dos fill-ins, aquela transição marada da pausa para a full beat. E mesmo assim não é em todos. E de luz tão essencial que é, para terem uma noção, eu só me apercebi dela quando ela se acendeu pela primeira vez, lá para a 1 da manhã. O porquê do strobe não ter um papel tão importante lá prende-se com duas coisas:
1. Se eles não usam progressive house, têm fill-ins mais curtos e menos potentes, daí a parte mais importante para se usar o strobe fica logo desfavorecida;
2. As outras luzes são tantas e tão boas e tão bem colocadas que, como podem ver no vídeo, o strobe não faz a mínima falta:
Red Carpet - Alright @ Pacha London
E assim foi o resto da noite, a curtir estes sons bem alegres, sempre com sorriso nos lábios, olhos fechados... Bem, vocês sabem como é.
Agora os pontos negativos (nem vou falar de ser caro porque pronto, se há coisa que Londres não tem fama é de ser uma cidade barata): a droga! Por três vezes me vieram perguntar se tinha pastilhas! Isto é um degredo muito grande para um ambiente supostamente alegre - é que, gaita, não tavamos propriamente num ambiente de psy-trance! O ppl estava na descontra, não há necessidade de aditivos para aguentar a dançar aquilo que por si só já transmite energia... Enfim... O problema é se começarmos a pensar muito nisto e descobrirmos que aquilo que expliquei de no fim da noite a pista ainda estar a 80% daquilo que estava na hora de ponta, se dever ao Extasy. Aí sim, fico triste, mas infelizmente a noite traz sempre associada uma certa e determinada dose de degredo.
Outro ponto negativo (positivo para a gerência) é o funcionamento dos bares. Pela primeira vez vi em funcionamento o sistema que ainda só tinha ouvido falar da "dose certa". Lá todas as garrafas têm adaptado no gargalo um sistema que, virando a garrafa, só deixa cair uma quantidade pré-estabelecida de bebida, e depois corta o fluxo. Isto é o que dá lógica aquilo que ouvimos falar de "double whiskey" ou "double vodka" - visto que são duas porções da bebida que pretendemos. O grande problema é que, num copo alto com gelo, uma porção de vodka são mais ou menos 2 dedos de altura e mamas £4.50 (€6.75) se for puro ou £5.50 (€8.00) se for com mais alguma coisa. Os sumos com gás tanto podem ser à pistola como usando latas pequenas (unidose também, uma lata por cliente).
Para finalizar, a conta - as bebidas são pagas no acto da compra (meu querido HK e seus cartões magnéticos!!) e são tipo restaurante, apresentam-te o talão num pratinho, pagas e servem-te o troco nesse mesmo pratinho. Enfim, pormenores, hehe.
Em suma, foi uma experiência extremamente positiva e espero que este post permita a muita gente, tal como me permitiu a mim, perceber o que vai bem e o que vai mal na noite deste país.


4 Comments:
Bm amor gandas férias..ms principalmnt ganda nt...dvs ter curtido mm bues...Kt ao teu post: a descriçao ta altamnt e é super xeia d promenores o k faz c k por vzs ate nos sintamos lá...Mt boa mm! :)
Agr d volta ao trabalho hehe..o k é bom acaba deprexa :P
beijo
* Miss you *
florita
Mais uma vez gostei bastante de ler um "post" teu...sempre muito descritivo...parece que estamos lá contigo.
Nunca fui a Londres, mas é daquelas cidades a que adorava ir. Embora no meu caso, em termos de noite, gostava mais de ir a sítios como o Fabric, do que ao Pacha , mas isto é assim mesmo, casas diferente para gostos diferentes...eheheh.
Se as noites em Portugal começassem ás horas a que começam em Inglaterra, durante a semana até se podia sair á noite relativamente á vontade. Mas aqui tem-se a mania que a partir das 3 é que é bom...
Sinceramente, a atracção que a maioria do pessoal mais novo que sai á noite tem por música mais comercial não me cabe na cabeça...eu quando tinha a idade deles queria era ouvir coisas diferentes do que era tocado na rádio ou era mostrado na televisão...e lembro-me que a maioria do pessoal com quem eu me dava, fosse pessoal com gostos mais "rockeiros", fosse com gostos mais "electrónicos", só queriam ouvir coisas diferentes e de qualidade...where did it all went wrong? Felizmente continuam a existir muitas excepções...
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como eh possivel tere sido a londres e nao visitares o Fabric, o The End ou o Turnmills?? Foste ao Pacha e ficaste mal servido posso-te garantir...
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